Projeto capacita 10 mil mulheres empreendedoras no mundo*

Uma iniciativa global capacitou, nos últimos cinco anos, dez mil mulheres empreendedoras de 43 países, com cursos de negócios e gestão e com tutoria e networking para desenvolvimento de suas empresas. Trata-se do 10,000 Women programa criado pelo banco de investimento norte-americano Goldman Sachs, que contou com cerca de 90 parceiros acadêmicos. Entre eles, estão mais de 30 das principais escolas de negócios do mundo. No Brasil, a Fundação Dom Cabral (FDC) e a Fundação Getulio Vargas (FGV) capacitaram juntas 1.100 brasileiras. A FGV está com inscrições abertas para mais uma turma em 2014.

De acordo com Noa Meyer, diretora global do 10,000 Women, a ideia do programa surgiu de uma pesquisa feita pelo Goldman Sachs, pelo Banco Mundial e outros parceiros que mostrou que educar e capacitar mulheres é um bom caminho para melhorar saúde, educação e produtividade de gerações futuras.

— O investimento nelas causa um impacto significante no PIB porque gera um círculo virtuoso capaz de acelerar o desenvolvimento da comunidade onde elas vivem. A mulher investe sua renda e usa suas habilidades para ajudar a família e as pessoas ao seu redor. Nove de cada dez participantes do 10,000 Women compartilha com outras mulheres o conhecimento que adquiriram no projeto — revela Meyer.

Segundo Rosângela Pedrosa, coordenadora técnica do programa 10.000 Mulheres Empreendedoras pela FDC, o objetivo do projeto é identificar, em países emergentes, como Brasil, Egito e Índia, empresárias menos privilegiadas que, por alguma razão, não tiveram acesso a cursos de gestão e negócios.

É o caso de Gircilene de Castro, de Belo Horizonte. De família humilde do bairro Jardim Canadá, Gircilene foi a primeira brasileira a ingressar no projeto e já viajou para Washigton, Nova Iorque e Londres para contar sua experiência.

A empresária Gircilene de Castro, de Belo Horizonte, chegou a ver sua empresa falir por falta de conhecimento. No programa 10,000 Women identificou seus erros e promoveu mudanças que permitiram o crescimento de seu negócio

A empresária Gircilene de Castro, de Belo Horizonte, chegou a ver sua empresa falir por falta de conhecimento. No programa 10,000 Women identificou seus erros e promoveu mudanças que permitiram o crescimento de seu negócio

Dona da Alimex, empresa de alimentação coletiva que gere restaurantes corporativos, Gircilene chegou a falir no primeiro ano de funcionamento e acumulou dívidas que foram administradas, inicialmente, com a ajuda da família.

— Ser empresária era o meu sonho e eu sempre entendi que para ser bem-sucedida eu precisaria de determinação, coragem e conhecimento. Sem dúvida, sou uma mulher determinada e corajosa porque insisti no meu negócio de alimentação mesmo depois da falência, mas me faltava conhecimento para fazer com que ele engrenasse — conta a mineira.

Com aulas de gestão de negócios, estratégia, marketing e gestão de pessoas e a partir de consultoria recebida após o curso, Gircilene identificou os erros que cometia e transformou os processos desenvolvidos em sua empresa. Em 2007, ela tinha um cliente e dois funcionários. Atualmente, ela gere 45 funcionários no atendimento a 12 clientes.

— Eu não tinha conhecimento algum. Faltava controle, organização e planejamento. Depois do curso, ficou claro o que precisava mudar. E o importante é que ainda busco conhecimento, estudo meus concorrentes. Mesmo saindo do operacional, para focar na estratégia da empresa, mantenho-me próxima da linha de frente, converso com os clientes e, principalmente, com os funcionários que alimentamos. É daí que surgem novas ideias.

Em São Paulo, outra mulher conseguiu transformar sua empresa botando em prática aquilo que aprendeu em sala de aula. Em 2011, Carla de Melo fez o curso pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV.

Desde 2002, Carla produzia velas em casa e vendia para alguns clientes.

— Foram anos de trabalho amador, com pouco dinheiro, pouca orientação e muito sufoco. Quando não se tem planejamento, a gente limita nossa capacidade de crescimento. É como correr em círculo — avalia a dona da Loja das Velas.

Em 2011, ela ouviu no rádio que a FGV abriria inscrições para o curso que capacitaria mulheres empresárias como ela. Inscreveu-se e, depois de escolhida, alcançou mudanças ainda durante as aulas.

— No curso de operações, percebi que minha linha de produção era desorganizada. Meu professor aconselhou a mudança de posição de algumas bancadas. Um movimento simples fez o serviço fluir e a produção aumentar em cerca de 20% — lembra a empresária que, atualmente, vende 30 toneladas de vela por mês. De 2011 para cá, Carla saltou de dois para 11 funcionários, viu seu faturamento crescer anualmente 30% a 35%, e conquistou grandes redes de hotelaria como clientes. Recentemente, ela abriu uma loja física e ingressou no comércio virtual.

Segundo a diretora global do projeto, os negócios dessas mulheres são monitorados depois de seis, nove e 30 meses da formatura:

— Globalmente, as empresárias formadas pelo projeto dobraram seus quadros de funcionário e tiveram suas receitas aumentadas em quase cinco vezes. Estamos orgulhosos de compartilhar que, no Brasil, 79% das participantes entrevistadas relatam crescimento de faturamento e 56% delas contrataram novos funcionários, 18 meses depois da conclusão do curso.

Para Maria José Tonelli, uma das coordenadoras do programa na FGV, ao fazer os cursos, as mulheres entram tímidas e saem se sentindo mais poderosas.

— Há uma diferença incrível na autoestima e no posicionamento dessas empresárias. E o melhor é que elas replicam isso para outras mulheres gerando um impacto social positivo — comemora Tonelli. — Com esse resultado, fomos convidados a dar continuidade ao projeto e abrimos inscrições para uma nova turma no segundo semestre deste ano.

As inscrições podem ser feitas pelo site www.10000mulheres.com.br até o dia 20 de maio. A FGV está fazendo uma reformulação do curso para oferecer mais cadeiras on-line e possibilitar o acesso de empresárias de outras cidades, já que as aulas presenciais ocorrem em São Paulo.

Depois da experiência do programa, a FDC estuda a realização de um projeto próprio nos mesmos moldes.

— Não se pode deixar na gaveta uma solução educacional como essa, com números incríveis. Estamos buscando parceiros para continuar promovendo esse tipo de capacitação — conta Rosângela Pedrosa, da FDC.

* Reportagem publicada no site do jornal O Globo, no dia 08/04/2014.

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